Sobre o autor
Sergio Portela é graduado em Letras Português/Inglês pela Universidade de Sorocaba – UNISO, especialista em Língua Portuguesa pela PUC-SP e autor do livro Nova Ortografia da Língua Portuguesa. Atualmente leciona Língua Portuguesa no Colégio Sim, em São Bernardo do Campo-SP, e vem escrevendo seu próximo livro Português no Direito Notarial e Registral, onde faz comentários sobre o correto emprego do português em textos jurídicos.

Poemas preferidos do autor
Madrigal Melancólico
Soneto do amor total
Ismália
O gondoleiro do amor
Pressago
Madrigal Melancólico
O que eu adoro em ti,
não é a tua beleza.
A beleza é em nós que ela existe.
A beleza é um conceito
e a beleza é triste.
Não é triste em si,
mas pelo que há nela,
de fragilidade e de incerteza.
O que eu adoro em ti,
não é a tua inteligência,
não é o teu espírito sutil,
tão ágil, tão luminoso.
Ave solta no céu matinal da montanha.
Nem a tua ciência,
do coração dos homens e das coisas.
O que eu adoro em ti,
não é a tua graça musical.
Sucessiva e renovada a cada momento,
graça aérea como o teu próprio pensamento.
Graça que perturba e que satisfaz.
O que eu adoro em ti,
não é a mãe que já perdi,
não é a irmã que já perdi
e meu pai.
O que eu adoro em tua natureza,
não é o profundo instinto maternal,
em teu flanco aberto como uma ferida.
Nem a tua pureza, nem a tua impureza.
O que eu adoro em ti,
lastima-me e consola-me.
O que eu adoro em ti é a VIDA
Manuel Bandeira

Soneto do amor total
Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.
Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.
Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.
E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.
Vinícius de Moraes

Ismália
Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.
No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar... Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...
E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...
E como um anjo pendeu As asas para voar...
Queria a lua do céu, Queria a lua do mar...
As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu.
Seu corpo desceu ao mar...
Alphonsus de Guimarães

O gondoleiro do amor
Teus olhos são negros, negros, Como as noites sem luar... São ardentes, são profundos, Como o negrume do amor;
Sobre o barco dos amores, Da vida boiando à flor, Douram teus olhos a fronte Do Gondoleiro do amor.
Tua voz é cavatina Dos palácios de Sorrento, Quando a praia beija a vaga, Quando a vaga beija o vento.
E como em noites de Itália
Ama um canto o pescador,
Bebe a harmonia em teus cantos
O Gondoleiro do amor.
Teu sorriso é uma aurora
Que o horizonte enrubesceu,
– Rosa aberta com o biquinho
Das aves rubras do céu;
Nas tempestades da vida Das rajadas no furor, Foi-se a noite, tem auroras O Gondoleiro do amor.
Teu seio é vaga dourada Ao tíbio clarão da lua, Que, ao murmúrio das volúpias, Arqueja, palpita nua;
Como é doce, em pensamento, Do teu colo no languor Vagar, naufragar, perder-se O Gondoleiro do amor!?
Teu amor na treva é – um astro, No silêncio uma canção, É brisa – nas calmarias É abrigo – no tufão;
Por isso eu te amo, querida, Quer no prazer, quer na dor... Rosa! Canto! Sombra! Estrela! Do Gondoleiro do amor.
Castro Alves

Pressago
Nas águas daquele lago
dormita a sombra de Iago...
Um véu de luar funéreo
cobre tudo de mistério...
Há um lívido abandono
do luar no estranho sono.
Transfiguração enorme
encobre o luar que dorme...
Dá meia-noite na ermida,
como o último ai de uma vida.
São badaladas nevoentas,
sonolentas, sonolentas...
Do céu no estrelado luxo
passa o fantasma de um bruxo.
No mar tenebroso e tetro
vaga de um náufrago o espectro.
Como fantástico signos,
erram demônios malignos.
Na brancura das ossadas
gemem as almas penadas.
Lobisomens, feiticeiras
gargalham no luar das eiras.
Os vultos dos enforcados
uivam nos ventos irados.
Os sinos das torres frias
soluçam hipocondrias.
Luxúrias de virgens mortas
das tumbas rasgam as portas.
Andam torvos pesadelos
arrepiando os cabelos.
Coalha nos lodos abjetos
o sangue roxo dos fetos.
Há rios maus, amarelos
de presságio de flagelos.
Das vesgas concupiscência
saem vis fosforescências.
Os remorsos contorcidos
mordem os ares pungidos.
A alma cobarde de Judas
recebe expressões cornudas.
Negras aves de rapina
mostram a garra asassina.
Sob o céu que nos oprime
langüescem formas de crime.
Com os mais sinistros furores,
saem gemidos das flores.
Caveiras! Que horror medonho!
Parecem visões de um sonho!
A morte com Sancho Pança,
grotesca e trágica dança.
E como um símbolo eterno,
Ritmo dos ritmos do inferno.
No lago morto, ondulando,
dentre o luar noctivagando,
O corvo hediondo crocita
da sombra d’Iago maldita!
Cruz e Sousa
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